quinta-feira, 21 de abril de 2016

Concurso Nacional de Leitura (2)


Numa das longas, ternas e luminosas tardes passadas na biblioteca da escola, que, mesmo nos dias em que o sol se esconde atrás das nuvens, nos têm acompanhado todas as semanas desde o outono, foi-nos inquirido o significado dos encontros semanais que realizamos, sempre ansiosos pela próxima vez, com vista à participação no Concurso Nacional de Leitura de 2016. Esta pergunta veio como o vento. Começou por ser uma brisa calma, o despontar de uma ideia, de uma reflexão. Até que acabou por se incrustar em nós, rebelde como um tornado, amontoando uma aglomeração de pensamentos e fazendo-nos questionar tudo o que havíamos estado a fazer nas últimas tardes de quinta-feira dos nossos dias.

A nossa assídua Comunidade de Leitores é constituída por um núcleo de amantes de livros, do seu cheiro, das folhas, das palavras, do conteúdo. Somos uma massa íntegra de seres enfeitiçados, embriagados pelo fluxo de imaginação e tentados a ir à procura de mais, a ver para além daquilo que nos é sugerido pelas bonitas páginas de fundo branco recheadas de letras impressas a preto, que se encontram diante dos nossos olhos. Não nos basta olhar, nós queremos ver com os olhos de quem deseja o infinito. A nossa Comunidade tem, como todo o ser vivo, uma essência que emana de si, podemos até ousar afirmar que, tal como uma flor, ela é dotada de uma raiz, um caule, folhas e pétalas, que florescem com o andar dos ponteiros do relógio. A raiz é o segmento, a partir do qual tudo começa, é a voz orientadora, que nos oferece, de bom grado, como uma mãe, o combustível, a alimentação, o empurrão necessário para voarmos, para florirmos, para crescermos mais um bocadinho. Tendo este ponto de partida, filtramos estes estímulos através do caule e damos vida a cada uma das folhas, a cada uma das pétalas da nossa flor, que são mais resistentes, exatamente, por nascerem da união de umas quantas almas na procura da significância de uma pergunta. É isso que nós somos, umas quantas almas que, por momentos, se esquecem daquilo que são e que as define para poderem progredir em conjunto. 

Quando nos encontramos na biblioteca da secundária, estamos a trazer o sonho à realidade ou a devolver a realidade ao sonho, estamos a alargar os nossos horizontes, como quem afasta, com as suas próprias mãos, as cortinas da janela, estamos a dar asas à fecundação de várias sementes, a do espírito crítico, a do crescimento pessoal e social, a do sonho e da imaginação, a da entreajuda, do companheirismo e da valorização do outro e a da ressurreição, isto é, de um renascer constante dentro de nós mesmos.

Nestas tardes em que nos temos encontrado por uma pura paixão em comum, já tivemos a possibilidade de conhecer cinco obras de cinco autores distintos, para além daquelas com que nos vamos deparando ao longo das nossas reflexões. Estas relacionam-se entre si da mesma forma que a Comunidade de Leitores o faz. O Carteiro de Pablo Neruda, O que Darwin escreveu a Deus, As Cidades Invisíveis, O Ano Sabático, Flores. António Skármeta, José Jorge Letria, Italo Calvino, João Tordo, Afonso Cruz. Tantos nomes que temos vindo a discutir, uns já familiares ao ouvido, outros que se fizeram conhecer. Tantas ideias, tantas crenças, tantas afinidades, tanto conhecimento, que nos devíamos sentir tão pesados pela responsabilidade que é detê-lo, no entanto saltitamos tão leves, tão livres.

Nós somos indivíduos que partilham um universo único, através do qual podem florir. Mas estas pétalas, estas flores que criamos não estavam lá sem a raiz, que nos sustenta, que nos dá alento e coragem e que nos rega com carinho. Esta raiz não nos dá a flor que amadurece deste impulso, dá-nos antes algo ainda mais louvável, a crença na capacidade, na possibilidade, as bases sem as quais nada é feito. Essa raiz orientadora, como uma mãe, é a professora Teresa Lucas.

O nosso plano nacional de leitura é especial, porque ouvimos aquilo que de mais humano há em nós, a necessidade do outro, as relações afetivas, o espírito de equipa e irmandade. Já está mais do que na altura de sabermos que o indivíduo prospera ao máximo, quando se permite escutar o outro. O “eu” não existe sem “nós” e, por isso, este projeto aquece-nos o coração, mostra-nos que cada percurso a seguir, desde que saibamos dar lugar ao outro, é o certo.

Mariana Carvalho, 12º H2

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Ao contrário dos meus colegas, participei, no meu 9º ano, no Concurso Nacional de Leitura. Coube-nos, nesse ano letivo, apenas, ler os livros escolhidos a concurso e analisá-los sozinhos, sem discutir ideias uns com os outros. Eu apenas conhecia de vista os colegas que, tal como eu, participavam neste projeto. Entre nós não havia uma ligação, nem companheirismo, mas, apenas, uma espécie de rivalidade, porque o nosso objetivo principal era ir a concurso. Aquilo que absorvíamos do processo de leitura, a aprendizagem que fazíamos uns com os outros, o prazer do ato de folhear o livro, lê-lo e compreendê-lo era quase inexistente. Líamos só por ler, como quem lê uma revista ou um manual de História A. Não retínhamos conhecimentos, nem decifrávamos enigmas escondidos nas entrelinhas.

Agora, no meu último ano do ensino secundário, participo, novamente, neste concurso. Desta vez, sinto que esta experiência é revigorante e que estou a apreender muito. Nós criamos um grupo de leitura, encontramo-nos todas as semanas para discutirmos ideias sobre as obras que vão a concurso e não só. Esta partilha entre nós possibilitou captar melhor a essência de cada livro e as emoções que estes nos transmitem. Fez crescer, entre os membros do nosso círculo, uma amizade e conexão. Nós ficamos horas na biblioteca entretidos com conversas interessantíssimas. Descobrimos muito mais em equipa do que sozinhos.

A minha experiência neste projeto é, também, uma descoberta de mim e do meu autoconceito, o que promove o pensamento. Isto deve-se ao diálogo intensivo que estabelecemos, quando analisamos, em todas as sessões, as personagens e as suas características psicológicas, fazendo com que eu me identifique com elas. Isto ajuda--me não só a entendê-las, mas, também, a entender-me.

 Muitas vezes, as pessoas focam-se demasiado nelas próprias, esquecem-se que existem outros ´´eu´s``. Penso que esta é uma das razões para que haja tenções. A verdade  é que é complicado pormo-   -nos no lugar dos outros, percebê-los e compreender as suas perspetivas em relação às mais variadas coisas e situações. É ainda mais difícil quando aquilo que eles apregoam como o correto anula aquilo em que acreditamos. Sinto que este Clube de Leitores fomentou em mim a alteridade e a entreajuda. Cada vez que me encontro com os meus companheiros, o meu espírito crítico é estimulado, desenvolvo competências em mim que eu desconhecia e aprendo a perceber os outros, as suas perspetivas e entendo como expressar melhor os meus pontos de vista.

Penso que hoje em dia a sociedade promove cada vez mais a competição desmedida cuja principal intenção é quase que ´´eliminar`` os nossos adversários, e isso é mau… Em contraste com esta realidade, o projeto dinamizado pela Professora Teresa Lucas favorece uma competição saudável, com o objetivo de aprendermos uns com os outros.

  
    Maria Leonor Negalha Mendes Belo, 12º H2
     


terça-feira, 12 de abril de 2016

Comunidade de leitores





A Comunidade de Leitores da Escola Secundária Leal da Câmara promove encontros de leitura integrados no Plano Anual de Atividades da Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas de Rio de Mouro. Estes encontros, que têm uma periodicidade semanal, decorrem ao longo de todo o ano letivo e destinam-se a alunos do ensino secundário, visando a promoção do gosto pela leitura, a aquisição de competências neste domínio e a criação de um espaço de partilha de ideias e de descoberta individual através do envolvimento com o livro.

A dinâmica criada no seio deste grupo de leitores é sustentada pelo envolvimento com a comunidade escolar em diferentes patamares. O primeiro, que visa a ligação ao currículo, assenta na articulação entre a Biblioteca e o Grupo de Português, que assume um papel preponderante, não só na seleção dos livros a ler, como também na divulgação das atividades de leitura a desenvolver pelos alunos interessados.

 Esta ligação ao currículo é o ponto de partida para outras iniciativas que pressupõem sempre a presença da Biblioteca e a sua articulação, seja com a Rede de Bibliotecas Escolares, através da participação em atividades no âmbito do Concurso Nacional de Leitura, dinamizado por este organismo, seja com a comunidade educativa, como, por exemplo, a Câmara Municipal de Sintra, seja com outros parceiros, como as editoras escolares, contribuindo para a preparação dos Encontros com os Escritores convidados, através da leitura e apreciação de algumas das suas obras.

Semanalmente, a leitura, em suporte papel e/ou em ebook, possibilita também a articulação entre pares. Torna-se um elo forte de ligação e de interação entre os vários elementos desta pequena comunidade, suscitando momentos de prazer e de envolvimento pessoal através da partilha, da discussão/confronto de leituras vs interpretações distintas. Através da leitura expressiva, do diálogo crítico e reflexivo sobre essas leituras, questionam-se ideias, crenças e filosofias; contestam-se as regras a que obedece a própria sociedade civil, sempre numa perspetiva dialética entre o que é lido/sugerido e o que é vivido e partilhado por cada um dos leitores participantes.

 Face ao exposto, é possível afirmar que os livros causam impacto nesta comunidade de leitores: através do envolvimento na leitura estabelecem-se novas relações, constroem-se redes de sentido, descobrem-se novas leituras/perspetivas, criam-se oportunidades para questionar os valores e crenças pessoais. A leitura torna-se um meio de conhecimento do próprio “Eu”, que possibilita o crescimento pessoal através da partilha com o outro.

Enquanto mediadora desta comunidade, apenas posso testemunhar que os seus elementos valorizam o ato de ler, encontrando na leitura uma fonte de prazer.


professora Teresa Lucas

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Parabéns Mariana!



Parabéns à aluna Mariana Carvalho, vencedora do CNL 2016!

No dia 5 de abril decorreu, na Lourinhã, a 10.ª edição do Concurso Nacional de Leitura – Fase Distrital, organizado pelo Plano Nacional de Leitura.

A vencedora do Concurso para o ensino secundário foi Mariana Monteiro de Carvalho, aluna do 12.º H2 da Escola Secundária Leal da Câmara.

Na ES Leal da Câmara a preparação para este Concurso é feita ao longo do ano no âmbito de uma comunidade de leitores presencial que é dinamizada, durante 90 minutos por semana, na biblioteca. Este ano a responsável por esta comunidade de leitores é a professora da disciplina de Português, Teresa Lucas e os alunos que participaram em todas as sessões foram, para além da Mariana, a Maria Leonor Belo (12.º H2) e o Pedro Darwisch (10.º E1) que, infelizmente, não pôde ir à Lourinhã.

Apesar de apenas a Mariana ter ido à Fase Nacional do Concurso, os três alunos irão continuar a trabalhar em conjunto as obras selecionadas.

Nesta festa da leitura e do livro queríamos deixar uma palavra de agradecimento à equipa da Biblioteca Municipal da Lourinhã, na pessoa da Dra. Dina Carreira, pela boa hospitalidade e organização da iniciativa.

professora Liliana Silva

quarta-feira, 23 de março de 2016

The Library


Jason LaMotte, The Library, UK, 2015

Burger e Starbird



É difícil simplificar matérias profundas sobre o universo e o dia-a-dia. Mais complicado é encontrar alguém que o faça com humor e irreverência, fugindo aos padrões normais da partilha de conhecimento matemático.

Porém, Edward Burger e Michael Starbird conseguem-no. Em O Matemático Disfarçado, estes dois conceituados professores norte-americanos falam de coincidências, caos, números, infinito, ao sabor das datas, criptografia, origami, baralhos de cartas, cadeias de DNA e obras de arte.

Deixe-se levar pela sua intuição e seja divertidamente enganado. Surpreenda-se com o erro e aceite o desafio de virar as calças ao contrário com os pés atados ou de prolongar indefinidamente um baralho de cartas fora de uma mesa, sem cair.

As grandes questões tornam-se simples.
E o infinito fica mais perto.


A  BE/CRE agradece ao professor José Carlos Frias a oferta deste livro.
Cota: 51-BUR


Aula Aberta (3)


Aula Aberta dia 2 de março

O movimento das Luzes ou Iluminismo, como também ficou conhecido, foi um movimento intelectual que surgiu na Europa no século XVIII – apropriadamente designado por século das Luzes.

Mas porquê Luzes? A luz simboliza o conhecimento e tira o Homem da escuridão que representa a ignorância. Ora um dos principais ideais dos intelectuais iluministas era a valorização da educação e do conhecimento. A educação era o instrumento necessário para que o Homem pudesse pensar por si próprio e o conhecimento produzido racionalmente conduziria ao avanço da ciência, sinónimo de Progresso para a sociedade. Para eles, iluministas, o pensamento racional era o instrumento a utilizar para melhorar a sociedade e alcançar a liberdade – que consideravam o principal direito natural do individuo – e a felicidade, os governantes deviam organizar a sociedade de modo a garantir o bem-estar das populações.
Estas ideias de conhecimento, liberdade, felicidade vinham contra o contexto político, económico e social da época. De facto, estes intelectuais iluministas, na sua maioria de origem burguesa, criticavam a forma como a sociedade se organizava na altura, assente nas estruturas feudais e respetivos privilégios. Era uma sociedade muito desigual em que prevaleciam os direitos de nascimento – leis diferentes, acesso a certos cargos, só para referir algumas situações. De igual forma, apontavam o dedo à enorme influência da Igreja sobre a cultura e a sociedade, considerando-a responsável pela intolerância religiosa, fanatismo e bloqueio da evolução do conhecimento/racionalidade e do progresso científico, ao mesmo tempo que criticavam o regime político absolutista em vigor na maioria dos Estados europeus da época, em que os monarcas concentravam nas suas mãos todos os poderes, intervindo em todos os setores e não admitindo críticas à sua atuação (ausência de liberdade de expressão).

Os pensadores iluministas ao defenderem a separação de poderes, o contrato social como base da Soberania Nacional, a separação entre o Estado e a Igreja, a igualdade perante a lei e o direito à liberdade, à segurança e ao bem-estar marcaram de tal forma a sua época que acabaram por contribuir decisivamente para as mudanças políticas e sociais que tiveram lugar na Europa e no continente americano a partir dos finais do século XVIII, através das revoluções liberais.
Chegando a este ponto poderá pensar-se: pois, isto é tudo muito bonito mas estas ideias já têm quase trezentos anos, os pensadores iluministas já morreram todos e já não temos nada a ver com isto. Ou temos?

Cabe-nos agora refletir sobre o assunto. Se analisarmos com atenção o mundo que nos rodeia chegaremos à conclusão que, afinal, as ideias iluministas continuam bem atuais e a sua aplicação, ou não, afeta-nos diariamente.
O direito que cada um tem à liberdade individual é reconhecido por todos mas quantas vezes não surgem notícias na comunicação social referindo-se a casos de escravatura (exploração pessoal e económica) espalhados por esse mundo fora, muitos deles fomentados por empresas oriundas de países ditos democráticos que se deslocalizam em busca do lucro fácil e da desregulamentação do trabalho?
Garantir o direito dos cidadãos à segurança é uma das principais responsabilidades dos Estados mas estão bem frescos na nossa memória os vários atentados levados a cabo em várias regiões do globo e que têm abalado as estruturas de funcionamento e as liberdades individuais nos países ditos democráticos. Até onde estamos dispostos a abdicar das nossas liberdades individuais para viver sem medo?
E o direito ao bem-estar? Deve ser garantido pelos governos eleitos e que governam em representação dos povos e para os povos. Com as crises cíclicas fomentadas pelo liberalismo económico não há bem-estar que resista (educação, saúde, solidariedade social, habitação, lazer…). O número de pobres aumenta e assiste-se a uma regressão nas condições de vida e de trabalho das populações. Enquanto isso, os casos de corrupção entre os governantes vão sendo postos a descoberto (como aquele que grassa no Brasil no mesmo instante em que redijo estas linhas). Utilizam os cargos não para trabalharem em prol das populações mas em prol de si próprios, familiares e amigos.

Enfim… coitados dos iluministas… se viajassem no tempo até aos nossos dias iriam voltar a insistir na necessidade de modificar a sociedade e a organização política... 

professora Cecília Oliveira